

A endometriose continua sendo uma das doenças mais complexas da ginecologia. Durante décadas, a teoria da menstruação retrógrada foi considerada a principal explicação para sua origem. No entanto, essa hipótese apresenta limitações importantes para explicar casos de doença profunda, sintomas precoces, a distribuição anatômica constante das lesões e o comprometimento dos nervos da pelve.Em um artigo publicado pela Fertility and Sterility, Bárbara Ferneda Messias da Silva, Carolina Obrzut e Dr. Igor Augusto de Souza Chiminacio propõem uma nova reflexão baseada no modelo embrionário da endometriose.
Segundo essa hipótese, uma parcela das pacientes nasce com pequenos remanescentes de tecido de origem mülleriana distribuídos em locais específicos da pelve durante o desenvolvimento fetal. Essas células podem permanecer inativas por muitos anos e serem ativadas posteriormente por estímulos hormonais e inflamatórios.Esse modelo explica por que a endometriose profunda apresenta um padrão anatômico altamente previsível, acometendo repetidamente regiões como os paramétrios, o septo retovaginal, os planos fasciais retroperitoneais e os corredores neurovasculares. Também ajuda a compreender por que muitas pacientes apresentam dor intensa, mesmo com poucas lesões superficiais visíveis, uma vez que a doença se organiza ao longo de compartimentos anatômicos e não apenas sobre a superfície do peritônio.
O artigo também destaca evidências que reforçam essa hipótese, incluindo estudos que identificaram tecido semelhante ao endométrio em fetos antes mesmo da exposição à menstruação, além da participação de genes do desenvolvimento, como HOXA10 e HOXA11, que podem relacionar alterações embrionárias tanto à endometriose quanto à infertilidade.Do ponto de vista cirúrgico, os autores defendem que o tratamento da endometriose profunda deve ir além da simples retirada de nódulos. A cirurgia deve ser baseada na reconstrução dos compartimentos anatômicos comprometidos, com remoção da fibrose, alívio do encarceramento nervoso e preservação das estruturas responsáveis pelas funções urinária, intestinal e sexual.Mais do que apresentar uma nova hipótese, o artigo propõe um caminho científico para testá-la.
O modelo embrionário gera previsões objetivas que podem ser avaliadas por estudos prospectivos, utilizando mapeamento anatômico detalhado, histopatologia orientada por compartimentos, análises moleculares e avaliação funcional dos pacientes.Em resumo, o trabalho não afirma que toda endometriose tenha uma única origem, mas demonstra que o modelo embrionário possui forte plausibilidade biológica e oferece uma estrutura capaz de explicar muitas das características observadas na endometriose profunda. Trata-se de uma proposta que pode contribuir para um diagnóstico mais preciso, uma melhor compreensão da doença e o desenvolvimento de tratamentos cirúrgicos cada vez mais eficazes.
DOI: 10.1016/66567c6f-1e98-42eb-81e1-a9a1c09b8b0
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