
Recentemente tive a honra de participar do Anima Podcast, ao lado da Dra. Vanessa Wink e do Dr. Diogo Wink, em uma entrevista gravada no Rio de Janeiro. Durante cerca de uma hora e meia, discutimos um dos temas mais importantes da saúde da mulher: a endometriose.Em um cenário onde ainda existem muitas informações incompletas e conceitos ultrapassados sobre a doença, o objetivo da conversa foi oferecer uma visão baseada na ciência, na experiência cirúrgica e na evolução do conhecimento médico, contribuindo para esclarecer dúvidas tanto de pacientes quanto de profissionais da saúde.
O Anima Podcast tornou-se um importante canal de divulgação científica, levando temas complexos ao público de forma acessível e responsável. Participar desse espaço representa uma oportunidade de ampliar o debate sobre a endometriose e contribuir para que mais mulheres tenham acesso a informações atualizadas.Durante a entrevista abordamos desde os sintomas mais comuns até os casos mais complexos da doença, explicando por que tantas pacientes permanecem anos sem diagnóstico adequado e por que a dor nunca deve ser considerada "normal".
Um dos principais temas da entrevista foi a apresentação da visão embrionária da endometriose.Ao longo das últimas décadas, diversos estudos vêm fortalecendo a hipótese de que a doença possa ter origem ainda durante o desenvolvimento fetal, por meio da permanência de remanescentes de tecido mülleriano em diferentes regiões da pelve e do abdome.Essa perspectiva ajuda a compreender características que observamos diariamente na prática clínica:

Na entrevista discutimos como esse modelo embriológico amplia nossa compreensão da doença e oferece uma explicação anatômica para muitos padrões observados durante a cirurgia.
Outro ponto importante da conversa foi desmistificar a ideia de que a endometriose seja composta apenas por pequenos "focos" superficiais.Explicamos que, frequentemente, a doença encontra-se infiltrada abaixo do peritônio, envolvendo tecidos conjuntivos, nervos, paramétrios e outras estruturas profundas da pelve. Essa infiltração está relacionada à fibrose, ao encarceramento nervoso e à inflamação crônica, fatores que explicam grande parte da dor e das alterações urinárias, intestinais e reprodutivas apresentadas pelas pacientes.Compreender essa anatomia modifica completamente a forma de enxergar o tratamento.
Também discutimos a importância da excisão completa da doença, respeitando os planos anatômicos e embriológicos.Apresentei conceitos desenvolvidos ao longo da minha experiência cirúrgica, como a remoção em bloco, que busca tratar a doença de maneira sistematizada, preservando estruturas nobres sempre que possível e promovendo a liberação de nervos e tecidos comprometidos pela fibrose.Essa abordagem representa uma mudança de paradigma ao priorizar a anatomia, a embriologia e a compreensão global da doença.

Mais do que uma entrevista, essa participação foi uma oportunidade de contribuir para que milhares de mulheres tenham acesso a informações atualizadas sobre uma doença que ainda é cercada por mitos.Quando pacientes compreendem melhor a endometriose, conseguem buscar diagnóstico mais precocemente, fazer perguntas mais conscientes e participar de forma ativa das decisões sobre seu tratamento.Levar esse conhecimento para um podcast de grande alcance nacional reforça um compromisso que norteia toda a minha atuação profissional: divulgar ciência de forma clara, responsável e baseada em evidências, aproximando o conhecimento acadêmico da realidade das pacientes.Espero que essa conversa incentive cada vez mais pessoas a enxergarem a endometriose não apenas como uma doença ginecológica, mas como uma condição complexa, cuja compreensão continua evoluindo graças ao avanço da pesquisa científica e ao diálogo entre especialistas.